terça-feira, janeiro 18, 2005


With a little help from my friends



Há semanas que, pela sua intensidade, nos obrigam a parar ou, melhor dizendo, a tentar digerir, a tentar compreender como é que o cenário que nos rodeava foi, repentinamente e sem aviso, estiolado, envolvendo-nos nas cores diluídas do desconforto.

Nesses momentos de perturbação, a estupefacção inicial dá lugar à revolta e esta à interrogação, ou vice-versa, tanto faz, penso que dançam juntas.

Ainda que o conflito não seja nosso – e, muitas vezes, sobretudo quando o não é – quer a verbalização (sempre esperada como potencial para o intensificar), quer a não verbalização (imperdoável pela pouca dimensão que se lhe pretende reconhecer) são entendidas como agressão maior.

Não raro, nestas circunstâncias, os litigantes – e o Freud explicou isto de certeza – usam as poucas munições que lhes restam para atingir o novo alvo que teve a ousadia de não engrandecer a disputa.

Quando este nonsense me agride – e isso acontece a todos – lembro-me sempre das palavras de Shantideva, no Bodhichary’avatara:

Há quem me despreze, porque hei-de alegrar-me por ser louvado?
Há quem me elogie, porque hei-de afligir-me por ser denegrido?


Coincidentemente, sem suspeitarem sequer das cores pardas do meu cenário, alguns dos meus amigos (desculpem-me os que não conheço pessoalmente e que de forma abusiva incluo nesse grupo) ofereceram-me – dentro e fora da blogosfera – momentos inesquecíveis, enlaços, referências imerecidas, felicitações sem possibilidade de contraditório, poemas ditos e o favor dos gestos e da palavra que estão para além de qualquer adjectivação.

Não vou nomeá-los – porque nenhum o fez com o intuito de ser retribuído e, ainda, porque seria injusto deixar de fora os que preferem o anonimato – mas tenho a certeza que cada um se reconhece nas dádivas que mencionei.

Era inevitável que, neste contexto, (ai a chatice das citações!) me lembrasse desse poema de Leaves of Grass:

O ME! O life!... of the questions of these recurring;
… …
The question, O me! So sad, recurring – what good
Amid these, O me, O life?
Answer.
That you are here – that life exists, and identity;
That the powerful play goes on, and you will contribute
A verse


Não sendo este o sentido que Whitman lhe quis dar, reduzo a escala (ele continua grande) e uso-o para agradecer a todos os que, nestes dias, me fizeram o carinho de contribuir com um verso.